Carta aberta para a Gabi da “Quarentena”

Escrevo aqui para eternizar e para que toda a vez que eu precise escolher, eu escolha o certo!

Estava levando numa boa… juro que estava!
Eu como uma “criadora de momentos” que se preze transformava os problemas em coisas boas! 

Estava mais presente com as crianças, família mais unida, vinhos e jantares todos os dias… Seguindo a risca o meu lema de “se a vida te deu limões, faça caipirinhas”…
Dado que temos o covid lá fora, como fazer aqui dentro o melhor possível para se viver!

E assim foi! Na verdade está sendo… exceto pela parte das crianças!

Sempre me julguei uma ótima mãe.. Não falei perfeita… falei ótima!
Entre erros e acertos é obvio, mas sempre fui a melhor versão possível de mãe que eu poderia ser…

Com o passar dos dias, semanas e meses (dói ouvir “meses né”) fui focando muito no meu trabalho… MEUS trabalhos… Fui querer abraçar um mundo sentadinha na cadeira do meu homeoffice… Afinal… “agora a gente tem tempo né? NUNCA FIZ TANTA COISA NA VIDA! Continuo com a minha empresa a mil, comecei uma nova sociedade, 2 na verdade mas uma está na gaveta ainda, aceitei novas funções em um empresa que eu amo demais, ajudo os amigos que me gritam… Fora os cursos que eu compro e não consigo terminar!

Resultado: fico na ativa das 08 as 20:30 (isso pq me obrigo a parar de trabalhar “cedo”) e a sensação de estar sempre devendo, começar e não terminar nada me assombra! Nunca fui assim! Ser virginiana nunca havia me permitido isso… rs

Me irrito com a minha sombra, inúmeros fios de cabelo pelo chão, 435 gritos com as crianças e incontáveis NÃOS que falo para as elas ao longo do dia… Repetindo… “Falo para ELAS…”

Isso foi uma breve constatação do meu estado atual para contar para vocês que hoje eu me resgatei! De uma forma tão forte e de um jeito que estava longe de realizar que estava precisando ser resgatada…
Observem…

Foi as 09:30 da manhã em uma reunião sobre AMOR…

Mulheres maravilhosas unidas por valores, propósitos, carinho, amizade em uma tela de zoom cheia de competência e de profissionais FODAS e cada uma com seu jeitinho, tem o seu lugar exclusivo no meu coração e lições para dar… Cada uma com suas dores, amores, skills que se complementam…

Uma reunião sobre AMOR, que transbordava AMOR…
Eis que surge uma palavra: SAUDADE e uma das meninas fala:
“Eu não consigo mais ser que eu era… eu tenho saudade de ser a mãe que eu era…”

PAFFF bem no meio da minha cara! Sabe quando a carapuça serve de um jeito que você tem um ataque de choro, emoções vem a tona e você encaixa aquele sentimento de irritação que tem sido constante e o turbilhão de sentimentos que estavam todos emaranhados começam a desembaraçar e você começa a ter clareza?

Como se estivesse realizando coisas que estavam gritando diante do seu nariz mas você sempre estava muito “ocupada” pra perceber…

“Eu não consigo mais rir das palhaçadas, gracinhas e até mesmo “mini birras” que meus filhos fazem… eu só brigo o tempo todo”
“Quando eles chamam MAE, eu até arrepio… mas caceta… eles estão chamando a MAE! Se não puderem chamar pela mãe sem medo de uma grosseria quem mais eles vão chamar?”

Nessa hora os soluços vieram junto com lágrimas que, como uma tempestade dentro de mim, literalmente lavaram a minha alma!

Eu não estou mais conseguindo ver todo o brilho que eu sempre vi nas coisas…

Qualquer gesto das crianças que “atrapalhem” alguma das atividades de uma das 456 funções que estou é motivo para uma cara feia, uma bufada, um “estou em reunião”, “preciso fazer isso e vocês não deixam”, “você não está vendo que eu não posso agora?”….

Só que acaba que “você não pode NUNCA” elas falam… e é verdade pq mundo chega a noite eu preciso respirar e recarregar para o dia seguinte…

Comecei a ver que minhas filhas, AS COISAS QUE MAIS AMO NESSE MUNDO, eram as ÚNICAS que não estavam na minha agenda… e pior.. estavam sendo como para raios para as minhas irritações!

Como assim? E aquela mãe que eu sempre amei ser? Cade?

Nunca trabalhei tanto como nessa quarentena… 
Nunca me cobrei tanto e ao mesmo tempo nunca falhei tanto e tive tantas frustrações… Não de “não entregas”, mas de insatisfações pois sei que poderia estar sendo muito melhor!

Na tentativa de não deixar ninguém na mão, quem ficou a ver navios e num vácuo absurdo foram as minhas filhas…

Um parênteses, Eu AMO trabalhar, alimenta a minha alma!
Sempre gostei e desde que eu tinha 18 anos que eu não parei mais…
Sempre orgulhosa do que eu fazia! Dando ou não dinheiro, muito ou pouco, mas quem me conhece a mais tempo sabe que sempre tive um brilho nos olhos em qq função que estivesse exercendo…

Trabalhei com meu pai (médico) como recepcionista em uma das clinicas dele e eu era a primeira a chegar e a última a sair, trabalhei como vendedora para pagar a batida do meu carro (que meus pais se recusaram a pagar e agradeço até hoje pois pude aprender muito sobre dinheiro nessa fase tão importante) e fazia desde venda até limpar prateleira, fazer café, o que fosse preciso…

Mais tarde como estagiária em uma grande empresa era mais comprometida do que muita gente “efetivada” e por aí foi…
Sempre agradecendo muito a todas as oportunidades que a vida dava…
E fui tendo sucesso na minha carreira corporativa! (esse “resgate” está indo muito mais fundo do que imaginava… mas simbora…rs)

Sempre falei “eu nunca vou ser aquela mãe que abandona a carreira para cuidar de filho” “eu vou tirar 3 meses de licença e já to de volta”….
Eis que: eu virei mãe! E descobri que minha Nati era o melhor projeto que eu poderia tocar naquele momento!
Nada me dava mais alegria do que cuidar daquele serzinho que dependia 100% de mim!

Com todo o prazer do mundo! Aquilo me satisfazia e me bastava! (É claro que eu podia escolher… e muitas pessoas não podem! Mas, justamente pelo fato de poder escolher, que eu escolhi o que julguei ser o melhor!

Ela mais velha um pouco comecei a empreender, coisas deram errado, pensei em voltar para o corporativo e fiquei gravida de novo, do meu segundo projetinho mais amado desse mundo, minha Manu…
Agora com 2 em casa, resolvi insistir em empreender e de novo, coisas deram errado mas também deram certo!

Nem sempre é sobre sucessos ou insucessos, e sim sobre a certeza de que SEMPRE eu tinha feito e sido o MEU melhor…
Assim como mãe, você erra querendo acertar e se importa com o resultado e sempre busca dar o seu melhor…

Voltando aos tempos atuais depois desse “senta que lá vem história” me encontro num lugar onde tenho a consciência de não estar sendo uma boa mãe, irritada, mal humorada, bem sem graça e por muitas vezes até grossa mas eu não faço nada!

Sempre amarrada com as 456 mil coisas que tb não estão saindo do jeito que eu quero… simplesmente pq não dá!

O dia tem 24 horas e a semana tem 7 dias… e no ritmo que eu estava/estou (estou pq parei pra escrever essa reflexão e já estou com pânico dos emails caindo na minha caixa) eu estava com culpa de sentar no sofá final de semana… Sempre aquela voz falando: pq vc não aproveita pra fazer seus cursos, montar aquele ppt, responder os emails q deixou como “favoritos” mas não respondeu? 

E as coisas estão como gremlins que se reproduzindo me apavorando e me atacando! 
Uma coisa é você passar pontualmente por isso, outra coisa é virar estilo de vida!

E isso não pode mesmo!
A casa precisa ser arrumada! Agora!
Não vou, não posso e não quero parar… vou apenas me respeitar e desacelerar!

Minhas pequenas precisam de mim e eu preciso delas! É hora de dizer sim!

Esse momento é muito delicado, eles estão com emoções a flor da pele, brigando uma com a outra, disputando atenção, problema pra dormir, pesadelos…. coisas da idade, coisas do confinamento, não importa o culpado o que importa é a realidade!

Essa é a geração COVID e elas terão a mãe que precisam! A mãe que tem as responsabilidades, que luta, que trabalha mas que é presente e tem todo o carinho do mundo para ajudá-las a passar por esse momento e tornar  isso na lembrança uma BOA história  quarentenal pra contar!

Nunca é tarde para escolher!

Gabi Neves
Engenheira, Empreendedora e MÃE da Naná (6 anos) e da Nunu (4 anos)

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